Anarcocapitalismo de Estado?

Já tinha visto jovens tomando sopa no restaurante universitário e defendendo o fim da universidade pública, mas achava que a confusão parava por aí.

A verdade é que essa juventude “anarcocapitalista”, “ultraliberal” e “libertariana” ocupa cargos no Estado e comanda páginas com mais de 500 mil seguidores e canais no youtube com 570 mil inscritos e vídeos com mais de 700 mil visualizações.

De acordo com a reportagem “Quem são os libertários e anarcocapitalistas, que pregam o fim do Estado” publicada pelo jornal Folha de São Paulo, “Paulo Guedes levou para sua equipe uma vasta gama de liberais, e os libertários e anarcocapitalistas não foram excluídos. Estrategicamente, eles estão em áreas que cuidam da redução do Estado na atividade econômica. Um deles é Geanluca Lorenzon, 26, diretor de Desburocratização do Ministério da Economia e fundador do Clube Farroupilha, de Santa Maria (RS), uma das muitas entidades ultraliberais surgidas nos últimos anos”.

Esse componente juvenil do governo bolsonaro é algo que precisaria ser estudado mais a fundo. Ele, ao que parece, fornece a bolsonaro, no plano ideológico, um tipo de atração entre jovens na faixa entre 20 e 30 anos ligados nas ideias de Mises, Hayek, Ayn Rand e Rothbard, criptomoedas e aceleracionismo de direita.

Parece-me que a política econômica do desgoverno bolsonaro pode, paradoxalmente, ser definida como “anarcocapitalismo de Estado”. Trata-se de um governo que se utiliza dos aparatos do Estado – e da força contestatória da juventude – para destruir o Estado. Lebrun certa vez disse que os liberais são aqueles que serram o próprio galho. Diria que os ultraliberais serram o próprio galho e celebram o acidente. Há um desejo de abolição em suas linhas de fuga.

O desejo revolucionário de significativas parcelas da juventude brasileira foi capturado por uma máquina que estimula seus sonhos de liberdade entregando-lhe no mesmo pacote informacional o delírio sem limites do capitalismo, a ilusão de um “livre mercado” que nada tem de “libertário”. De repente, tornou-se ‘cult’ defender com uma pistola automática ou um rifle o fim do SUS e da universidade pública para todos e todas.

E não pensemos que o desejo por armas é apenas efeito retórico. Ele é real, mas circula fora do radar dos titios e titias do FB e do Twitter. As ameaças recentes de atentado armado a universidades brasileiras estavam sendo planejadas em sub-fóruns do 4chan que permite e encoraja a interação anônima entre seus usuários. O 4chan é o maior fórum do mundo, com doze milhões de visitantes por mês. O que se passa neste momento nas profundezas da web? Quais são seus efeitos na superfície do real? Um deles não se expressaria justamente na defesa do governo por parcelas significativas da juventude? Defesa que na verdade não é a defesa do político (há 30 anos no Estado) Bolsonaro, mas defesa de um desejo geracional capturado por estrategistas de campanha como Steve Bannon e identificado com a imagem vazia do “mito”.

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