Geologia da moral petropolítica

O discurso moralista sobre corrupção não é o resultado de um esforço de entendimento do sentido ou dos múltiplos sentidos que a corrupção tem em uma determinada sociedade e em um determinado período histórico, mas expressa uma satisfação perversa em atribuir a alguém ou a um conjunto de pessoas a pecha de corrupto, como se aqueles que o proferem pairassem desde sempre acima de toda e qualquer corrupção. Visa-se antes, por interesses escusos (e corrompidos?), a aniquilação de uma pessoa ou de um grupo do que propriamente a corrupção, esse obscuro objeto do desejo de acusar e condenar (em muitos casos sem provas). Em seu famoso texto “Teoria freudiana e o padrão da propaganda fascista” Adorno diz que “a esmagadora maioria dos pronunciamentos de todos os agitadores é direcionada ad hominem”. Os convictos discursos da corrupção na Petrobras serviram aos moralistas não exatamente para criarem “um Brasil livre da corrupção” (como tanto alardearam) mas para, através da personalização da corrupção, produzirem o simulacro de uma empresa corrompida, quebrada, deficitária e estabelecerem as condições para, progressivamente, venderem-na a preço menor do que o preço da banana nanica sob o aplauso e os likes dos cidadãos de bem irmanados de verde e amarelo contra a corrupção dos outros, nunca a de si próprios e de seus heróis justiceiros, flagrados com as mãos sujas de óleo. O moralizador da corrupção não é, entretanto, tão esperto quanto esforça-se para parecer, deixou no caminho suas manchas. Um vazamento de informação encontra um vazamento de óleo. É como se informação e petróleo corressem agora nos mesmos dutos. O filósofo Reza Negarestani chama de “petropolítica” a cartografia do óleo como uma entidade onipresente narrando as dinâmicas da Terra. A língua do século XXI está suja de petróleo. “A petropolítica pode ser estudada para perseguir a emergência da Xerodrome (Terra-Deserto) como um clímax plano para a Odisséia da Tubulação ou um mundo cuja narrativa é primariamente conduzida através e pelo petróleo”.

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