No abismo das convicções

Nesta época em que o mais certo é o incerto verifica-se o uso recorrente da palavra convicção. Uma defesa? “Eu tenho convicção de que X é culpado”. “Eu tenho convicção de que a reforma X é boa para o povo brasileiro”. “Eu tenho convicção de que a esquerda …”. Este ‘eu’ convicto incapaz, ou com medo, de colocar-se em questão afirma estar convicto de alguma que sabe, profundamente, questionável, frágil. Ele próprio, admitamos logo, é questionável, frágil, e por isso fantasiar-se como absolutamente inquestionável passa a ser necessário para produzir uma aparência de verdade quando expressar suas convicções. O sujeito de convicção deve ser uma convicção aceita tácita e passivamente por todos. Convicto de sua própria substancialidade, e certo de que o público não tem dúvidas quanto a isso, declara sua convicção em alguma coisa: “eu tenho plena convicção de que a reforma X vai gerar mais empregos”. O sujeito convicto de si, e questionável, declara sua convicção em alguma coisa incerta, que não consegue demonstrar. A convicção neste segundo nível opera para doar um efeito de verdade, gerar uma atmosfera de credibilidade, para um discurso sem fundamento. A convicção é uma âncora lançada no sem fundo. Hoje, ao amanhecermos mais uma vez com menos futuro, os brasileiros não debatemos a, terrível para a maioria, normal para a minoria, aprovação da reforma da previdência, mas o voto de um eu convicto. E a convicção neste eu convicto – seja para defendê-lo seja para criticá-lo – mais uma vez nos estraçalha e a previdência, a questão, o problema, é abandonado. Lembro de Nietzsche para quem “não foi o conflito de opiniões que tornou a história tão violenta, mas o conflito da fé nas opiniões, ou seja, das convicções”.

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