::: um nome :::

Tento lembrar seu nome. Escavo as grutas da memória. Perfuro as paredes do tempo, alcanço as linhas do seu rosto, seu cabelo, pele, corpo, movimentos, pausas, hesitações e decisões. Quase ouço a sua voz. Mas onde está a palavra etérea que designa o conjunto do seu ser? Seu nome: o nome que seus pais lhe deram. Seu nome registrado em cartório. Seu nome seguido de um sorriso depois de pronunciado. Faço listas de nomes, nenhum deles parece ser o seu. Tento o alfabeto. A, B, C… Nenhuma letra me leva a ele. Nenhuma letra traz seu nome a mim. Sei que tens um nome. Qual? Qual é o seu nome? Um nome entre todos os demais nomes, o seu nome. Te vejo em sonhos. Te vejo numa praça imaginária. Te vejo de joelhos na Igreja. Te vejo com sono. Te vejo adormecer. Te vejo desparecer. Fantasmático, obscuro, enigmático nome. Talvez nunca tenha sabido seu nome. Talvez você nunca soube meu nome. Não, não é possível, ao menos uma vez ele foi dito. No dia em que nos conhecemos provavelmente. E depois perdemos nossos nomes por um tempo até nos perdemos para sempre. Se ao menos eu ouvisse seu nome sendo dito por alguém. Sentiria que é, enfim, seu nome? Mas seu nome ninguém diz ou eu não escuto quando é dito. Percorro a lista telefônica, o facebook, o twitter, sites de nomes, perscruto nome a nome. Nenhum é o seu. Ninguém é você, mas você é alguém com um nome. Não que o nome seja mais importante que sua existência. Na verdade, o nome é só uma exterioridade, uma palavra que envolve o corpo vivo. Um nome consagra o sagrado. Mas se insisto nessa busca ensandecida é porque sinto que ao proferir seu nome revelar-se-á o indizível. Seu nome oculta um mistério, um lugar, uma possibilidade, um sentido perdido, um mapa. Seu nome escapa assim como o meu nome lhe escapa? Uma distância se abre. Um abismo se põe entre o desejo de nomear e a impossibilidade de o fazê-lo. Seu nome na ponta da língua se ausenta na eternidade. Escalo montanhas, atravesso florestas, enfrento feras, mergulho em mares profundos, atrás de seu pequeno nome. Seu nome me chama sem dizer meu nome. É provável, começo a desconfiar, que quanto mais eu busco mais me afasto dele. Quando encontrá-lo, se encontrá-lo, rirei. Seu nome será tão simples, tão obvio, como são todas as coisas belas da natureza.

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